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ANTES DE ABRIR UMA ONG, LEIA ESTE ARTIGO!

Abrir uma ONG não começa pelo CNPJ, pelo estatuto ou pela busca de um edital. Começa pela definição de uma causa, de um problema social concreto, de uma estratégia e da capacidade de transformar recursos em resultados. Uma organização formalizada, mas sem gestão, governança, projeto e sustentabilidade financeira, pode existir juridicamente e ainda assim fracassar na prática.

Se você está pensando em criar uma ONG, pare por alguns minutos antes de procurar um contador, advogado ou cartório.

Faça primeiro as perguntas deste artigo.

Porque talvez você descubra que precisa abrir uma organização.

Mas também pode descobrir que a melhor decisão é começar um projeto social, validar a iniciativa e somente depois formalizá-la.


1. A primeira pergunta não é: “Como abrir uma ONG?”

A primeira pergunta deveria ser:

“Qual problema social eu quero ajudar a resolver?”

Parece simples, mas essa pergunta separa uma organização construída sobre uma causa de uma organização criada apenas porque alguém teve uma boa intenção.

Imagine três pessoas:

Pessoa A:
“Quero abrir uma ONG para ajudar crianças.”

Pessoa B:
“Quero trabalhar com crianças em situação de vulnerabilidade.”

Pessoa C:
“Quero desenvolver um programa de reforço escolar e desenvolvimento socioemocional para crianças de 8 a 12 anos em situação de vulnerabilidade, atendendo inicialmente 30 crianças.”

A terceira ideia já começa a parecer um projeto.

Quanto mais claramente você define o problema, o público e o resultado desejado, mais fácil será transformar a intenção em uma organização estruturada.


2. ONG não é sinônimo de “projeto improvisado”

Um dos maiores erros de quem começa no Terceiro Setor é imaginar que uma organização social pode funcionar somente com boa vontade.

Boa vontade é importante.

Mas não é suficiente.

Uma organização precisa de:

  1. Missão
  2. Visão
  3. Valores
  4. Objetivos
  5. Público beneficiário
  6. Projetos
  7. Equipe
  8. Governança
  9. Recursos financeiros
  10. Processos administrativos
  11. Prestação de contas
  12. Indicadores de resultados

Uma causa precisa de gestão para ganhar escala e sustentabilidade.


3. “Sem fins lucrativos” não significa “sem dinheiro”

Essa é uma das maiores confusões de quem está entrando no Terceiro Setor.

Uma organização sem fins lucrativos pode gerar receitas e desenvolver atividades econômicas, desde que os recursos sejam destinados à finalidade institucional e não distribuídos como lucro entre seus integrantes.

Portanto, uma ONG precisa pensar em dinheiro.

Precisa saber:

  • quanto custa funcionar;
  • quanto custa cada projeto;
  • quanto precisa captar;
  • quais são suas fontes de receita;
  • quanto possui em caixa;
  • quais despesas são administrativas;
  • quais despesas estão diretamente relacionadas aos projetos;
  • como comprovar a utilização dos recursos.

Não ter finalidade lucrativa não significa não precisar de planejamento financeiro.


4. Antes do estatuto, faça o “Plano de Existência”

Eu recomendo que o futuro empreendedor social responda a pelo menos 10 perguntas antes de formalizar a organização:

1. Qual problema queremos resolver?

Descreva o problema de forma objetiva.

2. Quem será beneficiado?

Crianças? Idosos? Mulheres? Pessoas com deficiência? Jovens? Famílias? Comunidades?

3. Onde vamos atuar?

Um bairro? Município? Região? Estado? Brasil?

4. O que exatamente vamos fazer?

Não basta dizer “vamos ajudar”.

Descreva as atividades.

5. Qual será o primeiro projeto?

Comece pequeno e mensurável.

6. Quem fará parte da organização?

Fundadores, diretoria, voluntários, profissionais e parceiros.

7. Quanto custa colocar o projeto em funcionamento?

Faça uma estimativa.

8. De onde virão os recursos?

Doações? Empresas? Editais? Poder Público? Fundos? Eventos? Prestação de serviços? Parcerias?

9. Como vamos medir resultados?

Quantas pessoas atendidas não é suficiente.

Pergunte também:

O que mudou na vida dessas pessoas?

10. Por que essa organização precisa existir?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.


5. Entenda a diferença entre ONG, OSC e OSCIP

Outro ponto que precisa ficar claro antes da abertura.

ONG é uma expressão de uso comum, enquanto OSC é uma categoria jurídica utilizada pela legislação, especialmente no contexto das parcerias com o Poder Público.

A Lei nº 13.019/2014, conhecida como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC), estabelece regras para parcerias entre a administração pública e organizações da sociedade civil.

OSCIP — Organização da Sociedade Civil de Interesse Público — é uma qualificação, e não simplesmente um sinônimo de ONG.

Da mesma forma, OS — Organização Social — é uma qualificação específica, sujeita a legislação própria.

Por isso, não comece seu planejamento pensando:

“Quero abrir uma OSCIP.”

Comece pensando:

“Qual é a estrutura jurídica mais adequada para a organização que quero construir?”


6. Associação ou fundação?

Essa decisão merece atenção.

No Brasil, a associação é formada pela união de pessoas organizadas para fins não econômicos. O Código Civil estabelece requisitos que devem constar do estatuto, como denominação, finalidade, sede, regras de admissão e exclusão, direitos e deveres dos associados, fontes de recursos, funcionamento dos órgãos deliberativos, alteração estatutária, dissolução e gestão administrativa/prestação de contas.

A fundação, por sua vez, possui uma lógica diferente, baseada na destinação de patrimônio para uma finalidade específica. O Código Civil estabelece requisitos próprios para sua constituição e finalidades admissíveis.

Para muitas iniciativas sociais criadas por grupos de pessoas, a associação costuma ser o formato mais natural, mas a escolha deve considerar o projeto, a finalidade e a orientação jurídica adequada.


7. O estatuto não deve ser tratado como mera burocracia

Existe uma prática perigosa:

“Pegue um estatuto pronto na internet e coloque o nome da sua ONG.”

Não faça isso.

O estatuto é um dos documentos que estruturam juridicamente a organização.

Ele precisa refletir:

  • finalidade;
  • objetivos;
  • estrutura administrativa;
  • associados;
  • direitos e deveres;
  • fontes de recursos;
  • órgãos de decisão;
  • regras de gestão;
  • prestação de contas;
  • alterações estatutárias;
  • dissolução.

O próprio Código Civil estabelece conteúdos obrigatórios para o estatuto das associações.

Um estatuto mal elaborado pode criar problemas administrativos e jurídicos muitos anos depois da fundação da organização.


8. CNPJ não cria uma ONG sustentável

Outro erro comum:

“Depois que eu tiver o CNPJ, minha ONG estará pronta.”

Não.

O CNPJ é apenas uma parte da estrutura.

A Receita Federal informa que a inscrição no CNPJ pode ser solicitada para associações e outras entidades, e que o processo envolve etapas como viabilidade, aprovação das regras jurídicas e escolha do regime tributário aplicável.

Mas o verdadeiro trabalho começa depois.

A organização precisa construir:

CNPJ → gestão → projetos → equipe → recursos → execução → resultados → prestação de contas → credibilidade.


9. Pense na captação antes de abrir a ONG

Esse ponto é fundamental.

Não espere abrir a organização para depois perguntar:

“Agora, onde vou conseguir dinheiro?”

Faça o contrário.

Antes de formalizar, desenhe uma estratégia de sustentabilidade financeira.

Pense em pelo menos cinco possibilidades:

1. Doações individuais

Pessoas físicas podem apoiar a causa.

2. Empresas

Empresas podem patrocinar projetos, realizar ações de responsabilidade social ou desenvolver parcerias.

3. Editais

Institutos, fundações, empresas e órgãos públicos podem lançar chamadas para projetos sociais.

4. Parcerias com o Poder Público

O MROSC estabelece instrumentos como termo de colaboração, termo de fomento e acordo de cooperação, cada um com características próprias.

5. Investimento Social Privado

Empresas, institutos e fundações podem direcionar recursos para iniciativas sociais alinhadas às suas estratégias.

Uma ONG sustentável não depende de uma única fonte de recursos.


10. Não confunda “ter um projeto” com “ter um projeto financiável”

Você pode ter uma excelente ideia.

Mas um financiador provavelmente vai perguntar:

  • Qual problema será enfrentado?
  • Quem será beneficiado?
  • Quantas pessoas serão atendidas?
  • Qual metodologia será utilizada?
  • Quanto custa?
  • Em quanto tempo?
  • Quem executará?
  • Quais resultados serão entregues?
  • Como os resultados serão medidos?
  • Como será feita a prestação de contas?

O MROSC, por exemplo, exige atenção a elementos como plano de trabalho, capacidade técnica e operacional e compatibilidade entre os objetivos institucionais da organização e o objeto da parceria.

Captação começa muito antes do pedido de dinheiro: começa na capacidade de apresentar uma solução confiável para um problema real.


11. Quem vai administrar a ONG?

Essa pergunta é frequentemente ignorada.

Imagine uma organização que possui:

  • presidente;
  • vice-presidente;
  • tesoureiro;
  • secretário;
  • voluntários.

Mas ninguém sabe exatamente quem faz o quê.

O resultado tende a ser conflito.

Por isso, antes de abrir, defina:

Área Responsabilidade
Governança Decisões estratégicas
Presidência/Direção Liderança institucional
Financeiro Controle financeiro
Projetos Planejamento e execução
Captação Relacionamento e recursos
Comunicação Marca e relacionamento
Voluntariado Gestão dos voluntários
Monitoramento Indicadores e resultados
Prestação de contas Transparência e comprovação

Uma organização cresce quando responsabilidades deixam de depender de uma única pessoa.


12. Cuidado com a “ONG do fundador”

Existe um fenômeno muito comum:

A pessoa cria a organização.

Depois:

  • centraliza todas as decisões;
  • controla o dinheiro;
  • escolhe todos os projetos;
  • não presta informações;
  • não cria processos;
  • não forma novas lideranças.

A organização passa a depender de uma pessoa.

Isso é perigoso.

Uma instituição saudável precisa construir governança.

Governança significa estabelecer mecanismos para que decisões, responsabilidades, controles e interesses institucionais sejam organizados.


13. Prestação de contas começa no primeiro dia

Não espere receber um recurso público para começar a organizar documentos.

Desde o início, mantenha:

  • notas fiscais;
  • recibos;
  • contratos;
  • comprovantes;
  • extratos;
  • registros de doações;
  • relatórios;
  • listas de participantes;
  • fotos das atividades, respeitando regras de imagem e privacidade;
  • indicadores;
  • documentos dos projetos.

No caso das parcerias submetidas ao MROSC, existem obrigações de transparência, monitoramento e prestação de contas. A própria Lei nº 13.019/2014 estabelece mecanismos relacionados à divulgação das parcerias e ao acompanhamento de sua execução.

Organização financeira não é apenas uma exigência burocrática; é uma ferramenta de confiança.


14. Não abra uma ONG somente porque existe um edital

Esse é um dos maiores alertas deste artigo.

Você vê:

“Edital de R$ 500 mil para projetos sociais.”

E pensa:

“Vou abrir uma ONG!”

Não.

O edital deve encontrar uma organização preparada — e não uma organização criada às pressas para tentar aproveitar um edital.

Leia primeiro:

  • objeto;
  • público;
  • território;
  • requisitos;
  • prazo;
  • documentação;
  • experiência exigida;
  • capacidade técnica;
  • contrapartidas;
  • orçamento;
  • indicadores;
  • regras de prestação de contas.

Depois veja se existe compatibilidade.


15. A pergunta mais importante: “Eu realmente preciso abrir uma ONG?”

Talvez sim.

Mas talvez não.

Se você ainda está testando uma ideia, pode começar por:

Projeto social → piloto → avaliação → aperfeiçoamento → parceiros → formalização.

Essa estratégia pode permitir que você descubra:

  • se existe demanda;
  • se o público participa;
  • se a metodologia funciona;
  • quanto custa;
  • quais parceiros podem apoiar;
  • quais resultados são possíveis.

Formalizar uma organização antes de validar a causa pode transformar uma boa ideia em uma estrutura pesada e difícil de sustentar.


16. Os 10 sinais de que você ainda não está pronto

Talvez seja melhor esperar se você ainda não consegue responder:

  1. Qual problema sua organização resolve?
  2. Quem é seu público?
  3. Onde você vai atuar?
  4. Qual será seu primeiro projeto?
  5. Quem fará parte da equipe?
  6. Quanto custa a operação?
  7. Como serão captados os recursos?
  8. Como será feita a prestação de contas?
  9. Como os resultados serão medidos?
  10. Por que alguém deveria confiar nessa organização?

Se você respondeu “não sei” para várias dessas perguntas, não significa que deve desistir.

Significa que ainda existe trabalho a fazer antes da abertura.


17. O roteiro que eu recomendo

Se você realmente deseja criar uma organização, siga esta sequência:

FASE 1 — PROPÓSITO

Defina a causa e o problema social.

FASE 2 — DIAGNÓSTICO

Conheça profundamente o público e o território.

FASE 3 — PROJETO-PILOTO

Teste uma solução em pequena escala.

FASE 4 — MODELO DE GESTÃO

Defina pessoas, processos, responsabilidades e governança.

FASE 5 — SUSTENTABILIDADE

Mapeie fontes de recursos e potenciais parceiros.

FASE 6 — ESTRUTURA JURÍDICA

Avalie, com profissionais habilitados, o formato jurídico adequado.

FASE 7 — FORMALIZAÇÃO

Estruture estatuto, registros e CNPJ conforme as exigências aplicáveis.

FASE 8 — PROJETO INSTITUCIONAL

Transforme a causa em projetos claros, mensuráveis e financiáveis.

FASE 9 — CAPTAÇÃO

Construa relacionamento com empresas, pessoas, institutos, fundações e Poder Público.

FASE 10 — IMPACTO

Meça resultados, comunique conquistas e melhore continuamente.


18. E depois que a ONG estiver aberta?

Aí começa uma nova etapa.

Sua organização precisará construir uma reputação.

E reputação no Terceiro Setor nasce da combinação:

Propósito + Gestão + Transparência + Resultados + Relacionamento.

Uma organização que demonstra:

“Sabemos qual problema enfrentamos.”

“Sabemos o que fazemos.”

“Sabemos quanto custa.”

“Sabemos onde os recursos são aplicados.”

“Sabemos quais resultados produzimos.”

tem muito mais condições de conquistar a confiança de parceiros.


19. O que muda quando você pensa como gestor social?

Você deixa de perguntar:

“Quem pode me dar dinheiro?”

E começa a perguntar:

“Que problema social consigo ajudar a resolver e quais parceiros podem construir essa solução comigo?”

Essa mudança parece pequena.

Mas é enorme.

Ela transforma a captação de recursos de uma simples busca por dinheiro em uma estratégia de construção de parcerias e impacto.


Checklist: antes de abrir sua ONG

Use este checklist:

☐ Tenho uma causa claramente definida.
☐ Conheço o problema social que quero enfrentar.
☐ Sei quem é meu público beneficiário.
☐ Tenho uma área geográfica de atuação.
☐ Tenho um projeto inicial.
☐ Sei quanto custa executar esse projeto.
☐ Tenho pessoas comprometidas com a iniciativa.
☐ Tenho uma estratégia inicial de sustentabilidade.
☐ Sei como pretendo medir resultados.
☐ Entendo que haverá responsabilidades administrativas e financeiras.
☐ Estou preparado para prestar contas.
☐ Estou disposto a construir governança.
☐ Buscarei orientação jurídica e contábil adequada para a formalização.

Se você marcou a maioria dos itens, provavelmente está muito mais preparado para dar o próximo passo.


Perguntas frequentes

É preciso ter muito dinheiro para abrir uma ONG?

Não necessariamente. O desafio maior é estruturar a organização de maneira adequada e sustentável. Os custos de formalização e operação dependem da estrutura, localidade e atividades escolhidas.

ONG pode receber dinheiro de empresas?

Sim. Empresas podem apoiar organizações e projetos sociais por diferentes mecanismos, desde que a relação seja estruturada de acordo com a legislação e os interesses das partes.

ONG pode receber recursos públicos?

Pode haver parcerias com o Poder Público, observadas as regras aplicáveis. O MROSC regulamenta diversas formas de parceria entre Administração Pública e OSCs.

Toda ONG precisa ser OSCIP?

Não. OSCIP é uma qualificação específica, não uma exigência geral para que uma iniciativa social exista como organização sem fins lucrativos.

Posso começar um projeto antes de criar a ONG?

Em muitos casos, começar com um projeto-piloto pode ser uma estratégia inteligente para validar a proposta antes de assumir toda a estrutura institucional. A forma adequada depende do tipo de atividade e da estrutura pretendida.

Uma ONG pode ter funcionários remunerados?

A organização pode contratar profissionais para executar suas atividades, observadas as regras trabalhistas, estatutárias, fiscais e contábeis aplicáveis.

 


Antes de abrir uma ONG, abra espaço para uma pergunta mais profunda: “Estou preparado para transformar uma boa intenção em uma organização capaz de gerar impacto?”

Porque criar uma instituição é relativamente fácil.

O verdadeiro desafio é mantê-la viva, ética, organizada, sustentável e relevante para a sociedade.

Uma ONG não deve existir apenas para ter um CNPJ.

Ela deve existir para produzir transformação.

E é justamente por isso que planejamento, gestão, governança, captação e mensuração de impacto precisam estar presentes desde o começo.


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José Passos
Professor e Consultor no Terceiro Setor
Gestão • Projetos Sociais • Captação de Recursos • Governança • Sustentabilidade • Impacto Social

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