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5 Segredos das ONGs que Mais Captam Recursos no Brasil

Como organizações sociais transformam confiança, gestão e relacionamento em sustentabilidade financeira

As ONGs que conseguem mobilizar mais recursos não dependem apenas de bons projetos ou de grandes doadores. Elas estruturam a captação como uma estratégia institucional, constroem confiança, diversificam fontes de receita, cuidam do relacionamento e conseguem demonstrar com clareza o impacto que produzem.

Antes de continuar, uma observação importante: não existe uma lista oficial única das “ONGs que mais captam recursos no Brasil” que permita estabelecer um ranking geral entre organizações. Por isso, neste artigo, a expressão “ONGs que mais captam” será utilizada para identificar padrões presentes em organizações com estruturas de captação mais maduras, e não para classificar instituições específicas.

Os dados recentes ajudam a entender por que isso importa. O Censo ABCR 2025 mostra uma profissionalização crescente da área de captação, enquanto o Censo GIFE 2024–2025 registrou R$ 5,8 bilhões em investimento social privado em 2024, considerando as 138 organizações participantes da pesquisa.


O SEGREDO Nº 1: ELAS NÃO TRATAM CAPTAÇÃO COMO “PEDIR DINHEIRO”

Essa talvez seja a mudança de mentalidade mais importante.

Uma organização pouco estruturada costuma pensar:

“Precisamos de dinheiro. Quem pode nos ajudar?”

Uma organização com uma estratégia de captação mais madura pensa:

“Temos uma causa, uma solução, resultados e uma rede de pessoas e instituições que podem fazer parte dessa transformação.”

A diferença parece apenas de linguagem.

Mas muda completamente a estratégia.

A própria Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) define captação como um processo estruturado para buscar contribuições de indivíduos, empresas, governos e outras organizações. A entidade também destaca a importância de equipe, relacionamento, transparência e planejamento.

Captação profissional não começa quando a organização precisa pagar uma conta; começa quando a organização constrói uma estratégia de sustentabilidade.


O SEGREDO Nº 2: ELAS VENDEM CONFIANÇA ANTES DE PEDIR RECURSOS

Imagine que uma empresa recebeu duas propostas.

ONG A

“Precisamos de R$ 100 mil para nosso projeto.”

ONG B

“Atualmente atendemos 180 pessoas. Nosso projeto possui metodologia definida, orçamento detalhado, indicadores de acompanhamento e histórico de resultados. Buscamos R$ 100 mil para ampliar o atendimento para 300 pessoas durante 12 meses.”

Qual das duas apresenta mais elementos para uma decisão informada?

A diferença está na capacidade de demonstrar credibilidade.

O estudo de desenvolvimento institucional da Plataforma Conjunta, divulgado em 2026 pelo IDIS, destaca justamente a relação entre governança, gestão, comunicação, tecnologia, equipes e construção de confiança. O estudo identificou 793 oportunidades de formação e captação em 2025, sendo 233 oportunidades de captação voltadas ao desenvolvimento institucional.

E há um dado especialmente relevante: segundo artigo do IDIS baseado na Pesquisa Doação Brasil 2024, apenas 30% dos brasileiros afirmam que a maior parte das ONGs é confiável; entre pessoas que não doam há mais de cinco anos, falta de confiança e transparência foi apontada como a razão mais citada para não doar, por 38% dos respondentes.

Antes de conquistar uma doação, a organização precisa conquistar confiança.


O SEGREDO Nº 3: ELAS NÃO DEPENDEM DE UMA ÚNICA FONTE DE RECURSOS

Imagine esta situação:

100% do orçamento da ONG depende de um único edital.

Se o edital não for renovado, o que acontece?

A organização entra imediatamente em crise.

Por isso, uma estratégia de sustentabilidade procura construir uma matriz de receitas diversificada.

Por exemplo:

Fonte Possibilidade
Pessoas físicas Doações únicas
Pessoas físicas Doações recorrentes
Empresas Patrocínios
Institutos Investimento social
Fundações Grants
Poder Público Parcerias
Editais Projetos específicos
Leis de incentivo Projetos habilitados
Eventos Campanhas
Produtos/serviços Receitas institucionais, quando compatíveis
Parcerias Recursos financeiros e não financeiros

Isso não significa que todas as organizações devam utilizar todas essas fontes.

Significa que a sustentabilidade não deveria depender de uma única porta de entrada.

O Censo GIFE 2024–2025 mostra a dimensão de uma das frentes desse ecossistema: as organizações participantes mobilizaram R$ 5,8 bilhões em investimento social privado em 2024, e o repasse direto para OSCs chegou a R$ 1,3 bilhão.


O SEGREDO Nº 4: ELAS NÃO ABANDONAM QUEM JÁ DOOU

Aqui está um dos pontos mais negligenciados.

Muitas organizações investem energia para conseguir um novo doador.

Depois que recebem:

“Obrigado pela doação.”

E desaparecem.

Meses depois:

“Você pode doar novamente?”

Isso quebra o relacionamento.

A ABCR vem destacando a retenção de doadores como uma questão central. Em debate sobre o cenário de captação em 2025, a entidade apontou que organizações com estruturas profissionais de captação conseguiram manter ou ampliar resultados mesmo diante de dificuldades, e ressaltou a importância de trabalhar a base de doadores já existente.

O raciocínio é simples:

Antes da doação

Conhecer → interessar → confiar → doar

Depois da doação

Agradecer → informar → demonstrar resultado → envolver → reconhecer → continuar relacionamento

A pessoa não deve receber notícias da organização somente quando existe uma campanha.

Ela precisa saber:

  • o que aconteceu;
  • quem foi beneficiado;
  • quais resultados foram alcançados;
  • como os recursos foram utilizados;
  • quais desafios continuam;
  • como pode participar.

Uma doação pode ser uma transação; um relacionamento bem cuidado pode se transformar em sustentabilidade.


O SEGREDO Nº 5: ELAS INVESTEM NA PRÓPRIA CAPACIDADE DE CAPTAR

Esse é provavelmente o segredo menos compreendido.

Algumas organizações dizem:

“Não temos dinheiro para contratar alguém para captação.”

Mas também esperam captar muito dinheiro sem estrutura específica.

Existe uma contradição aí.

Captação envolve:

  • planejamento;
  • pesquisa;
  • relacionamento;
  • comunicação;
  • elaboração de projetos;
  • análise de editais;
  • gestão de banco de dados;
  • acompanhamento de indicadores;
  • prestação de contas;
  • relacionamento com empresas;
  • relacionamento com doadores;
  • tecnologia.

O Censo ABCR 2025, divulgado em 2026, mostra o amadurecimento da profissão: 35% dos profissionais pesquisados tinham mais de 10 anos de experiência. O levantamento também encontrou associação entre formação/estrutura profissional e resultados de captação; profissionais que atuavam em áreas de captação estruturadas estavam em organizações que captavam, em média, R$ 25,9 milhões por ano. Esse número é uma média do grupo pesquisado, não uma meta ou garantia de resultado para outras organizações.

A ABCR também afirma que a captação deve ser tratada como atividade estratégica dentro das organizações.

Investir em capacidade de captação não é simplesmente aumentar uma despesa; é desenvolver uma competência institucional.


O 6º SEGREDO QUE QUASE NINGUÉM COMENTA: ELAS CONHECEM O SEU DOADOR

Uma organização não deveria falar da mesma maneira com todos.

Uma pessoa física pode querer saber:

“Quantas pessoas minha contribuição ajuda?”

Uma empresa pode perguntar:

“Como esse projeto se relaciona com nossas prioridades?”

Um instituto pode querer conhecer:

“Qual é a metodologia e qual será o impacto?”

Um órgão público terá:

“Quais são os requisitos, metas, instrumentos e regras de execução e prestação de contas?”

Portanto, captação também é segmentação.

Crie uma matriz:

Público O que procura
Pessoa física Causa + confiança + resultado
Empresa Projeto + alinhamento + impacto
Instituto/fundação Estratégia + metodologia + evidências
Poder Público Requisitos + capacidade + resultados
Parceiro técnico Complementaridade
Grande doador Relacionamento + confiança + impacto

O 7º SEGREDO: ELAS SABEM CONTAR A HISTÓRIA DA CAUSA

Uma planilha mostra números.

Uma boa narrativa mostra por que aqueles números importam.

Compare:

“Atendemos 500 pessoas.”

com:

“Em 12 meses, o projeto atendeu 500 pessoas. Além do número de participantes, acompanhamos indicadores de permanência, participação e resultados, permitindo avaliar a evolução do projeto.”

A segunda comunicação começa a mostrar:

atividade + método + acompanhamento + resultado.

Mas existe um cuidado importante:

Não transforme beneficiários em instrumentos de marketing.

Fotografias, histórias pessoais e depoimentos precisam respeitar:

  • autorização de uso de imagem;
  • privacidade;
  • proteção de crianças e adolescentes;
  • dignidade;
  • contexto;
  • consentimento.

Uma boa história não é aquela que explora a vulnerabilidade; é aquela que comunica o problema e mostra a possibilidade de transformação com respeito.


O SEGREDO DA GESTÃO FINANCEIRA

Captação e gestão financeira precisam conversar.

Não adianta captar R$ 500 mil se a organização não sabe:

  • quanto custa sua estrutura;
  • quanto custa cada projeto;
  • quanto possui em caixa;
  • quais receitas são restritas;
  • quais recursos são livres;
  • quais compromissos assumiu;
  • quais despesas estão previstas.

O IDIS destaca que a gestão financeira de uma OSC envolve planejamento de receitas e despesas, acompanhamento do caixa, registro rigoroso, análise de resultados e prestação de contas clara.

Captar é trazer recursos; gerir bem é transformar esses recursos em capacidade de realizar a missão.


E OS EDITAIS?

Editais continuam sendo importantes.

Mas existe um erro:

Transformar o edital na estratégia inteira de captação.

O levantamento da Plataforma Conjunta 2025–2026 mostra que, das oportunidades de captação para desenvolvimento institucional mapeadas em 2025, apenas 18% eram de recursos livres, enquanto predominavam financiamentos temporários e vinculados a determinadas finalidades.

Isso significa que a organização precisa pensar além do:

“Quando abrirá o próximo edital?”

E começar a pensar:

“Como construo uma base financeira que me permita continuar existindo entre um projeto e outro?”


A MATRIZ DAS ONGs COM CAPTAÇÃO ESTRUTURADA

Podemos resumir os principais padrões em uma fórmula:

CAPTAÇÃO SUSTENTÁVEL =

Propósito claro

  • Projeto consistente
  • Confiança
  • Relacionamento
  • Diversificação
  • Profissionalização
  • Gestão financeira
  • Transparência
  • Comunicação
  • Resultados

Se um desses elementos estiver muito fraco, a captação tende a encontrar dificuldades.


COMO APLICAR OS 5 SEGREDOS NA SUA ONG

Faça este diagnóstico.

Dê uma nota de 0 a 5 para cada dimensão:

Dimensão Nota
Clareza da causa ___
Qualidade dos projetos ___
Transparência ___
Relacionamento com doadores ___
Diversificação de receitas ___
Gestão financeira ___
Profissionalização da captação ___
Comunicação ___
Indicadores de impacto ___
Governança ___

Agora some.

Quanto mais baixa a pontuação em determinada área, maior deve ser a prioridade de desenvolvimento institucional.

A finalidade desse diagnóstico não é classificar sua ONG como “boa” ou “ruim”. É descobrir onde está o gargalo que pode estar limitando sua capacidade de captar.


PLANO DE AÇÃO: 90 DIAS PARA ESTRUTURAR A CAPTAÇÃO

Dias 1–30 — Diagnóstico

Faça:

  1. levantamento das fontes atuais;
  2. análise dos últimos 12 meses;
  3. identificação dos maiores doadores;
  4. levantamento de doadores inativos;
  5. análise dos projetos existentes;
  6. organização dos dados;
  7. identificação dos pontos fracos.

Dias 31–60 — Estruturação

Crie:

  1. proposta institucional;
  2. apresentação da organização;
  3. portfólio de projetos;
  4. banco de potenciais parceiros;
  5. calendário de editais;
  6. estratégia de comunicação;
  7. plano de relacionamento;
  8. indicadores de captação.

Dias 61–90 — Relacionamento

Comece a:

  1. reativar antigos doadores;
  2. apresentar projetos a empresas;
  3. mapear institutos e fundações;
  4. construir alianças;
  5. criar campanhas;
  6. testar doações recorrentes;
  7. acompanhar indicadores;
  8. agradecer e prestar retorno aos apoiadores.

Captação não é uma campanha de três meses; é uma função permanente da organização.


O QUE AS ORGANIZAÇÕES MAIS MADURAS FAZEM DIFERENTE?

Não é necessariamente que tenham:

❌ a causa mais emocionante;
❌ o maior número de seguidores;
❌ o projeto mais bonito;
❌ o presidente mais conhecido.

Elas tendem a construir algo mais difícil:

uma instituição confiável.

Uma instituição que consegue responder:

Quem somos?

Qual problema enfrentamos?

O que fazemos?

Como fazemos?

Quanto custa?

Quem beneficia?

Que resultados produzimos?

Quem já nos apoia?

Como prestamos contas?

O que queremos construir nos próximos anos?

Quando a organização consegue responder essas perguntas com clareza, sua capacidade de conversar com potenciais apoiadores muda.


E O INVESTIMENTO SOCIAL PRIVADO?

Essa é uma oportunidade que merece atenção.

O Censo GIFE 2024–2025 mostra que o investimento social privado realizado pelas organizações participantes chegou a R$ 5,8 bilhões em 2024. O estudo também apontou crescimento do grantmaking, com o volume destinado diretamente a iniciativas de terceiros chegando a R$ 1,3 bilhão.

Para uma OSC, isso reforça a importância de compreender:

  • quais institutos existem;
  • quais empresas possuem programas sociais;
  • quais territórios são prioritários;
  • quais temas recebem investimento;
  • quais critérios são utilizados;
  • quais projetos são apoiados;
  • como apresentar uma proposta institucional.

Não procure simplesmente “empresas que dão dinheiro”. Procure potenciais parceiros cuja estratégia tenha conexão real com a sua causa.


A NOVA REGRA: NÃO VENDA NECESSIDADE. APRESENTE SOLUÇÃO.

Em vez de:

“Nossa ONG precisa de R$ 200 mil.”

Experimente estruturar:

“Identificamos este problema. Desenvolvemos esta solução. Atendemos este público. Temos esta metodologia. Precisamos de R$ 200 mil para executar este projeto durante 12 meses. Estes são os resultados esperados e estes serão os indicadores utilizados para acompanhar a execução.”

A diferença é enorme.

O financiador deixa de enxergar apenas uma necessidade financeira e passa a enxergar uma proposta de transformação.


PERGUNTAS FREQUENTES

1. Qual é a principal fonte de recursos das ONGs?

Não existe uma fonte única que sirva para todas as organizações. As estratégias podem envolver pessoas físicas, empresas, institutos, fundações, editais, Poder Público, leis de incentivo e outras modalidades compatíveis com a organização e seus projetos.

2. É melhor captar de empresas ou de pessoas físicas?

São estratégias diferentes. Pessoas físicas podem contribuir para construir uma base recorrente; empresas podem apoiar projetos, programas ou estratégias institucionais. A organização pode trabalhar com diferentes públicos.

3. Doação recorrente é importante?

Sim. A literatura e os dados recentes sobre cultura de doação destacam a importância da recorrência para a sustentabilidade financeira das OSCs.

4. Toda ONG precisa contratar um captador?

Não necessariamente. A estrutura deve considerar porte, orçamento e estágio de desenvolvimento. Porém, os dados recentes da ABCR reforçam a importância da profissionalização e da estrutura dedicada à captação.

5. Quanto uma ONG deve investir em captação?

Não existe um percentual universal adequado para todas as organizações. O investimento deve considerar estratégia, porte, fontes de recursos, ciclo de captação e capacidade financeira.

6. Ter muitos seguidores ajuda a captar?

Pode ajudar na comunicação e mobilização, mas seguidores não equivalem automaticamente a doadores. Relacionamento, confiança, proposta clara e mecanismos adequados de conversão são fundamentais.


PRINCIPAIS PONTOS

  1. Captação de recursos é uma função estratégica, não simplesmente uma atividade de pedir dinheiro.
  2. Confiança, transparência e relacionamento são ativos fundamentais para a sustentabilidade.
  3. Diversificar fontes reduz a dependência de uma única fonte de financiamento.
  4. Doadores precisam ser cultivados depois da primeira contribuição, não apenas procurados novamente quando surge uma necessidade.
  5. Profissionalização, gestão financeira, comunicação e indicadores aumentam a capacidade institucional de uma OSC.

Os “segredos” das organizações que conseguem estruturar melhor sua captação não estão escondidos.

Eles estão em práticas que muitas vezes parecem simples, mas exigem disciplina:

planejar, profissionalizar, comunicar, relacionar, prestar contas, diversificar e demonstrar impacto.

O dinheiro não deveria ser o centro da estratégia de uma ONG.

A causa é o centro.

O dinheiro é um dos recursos necessários para que a organização consiga transformar essa causa em ação.

E talvez essa seja a principal mudança de mentalidade:

ONGs sustentáveis não ficam apenas procurando recursos. Elas constroem razões para que pessoas e instituições queiram fazer parte da solução.


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José Passos
Professor e Consultor no Terceiro Setor

Gestão • Projetos Sociais • Captação de Recursos • Governança • Sustentabilidade • Impacto Social

Conhecimento que transforma. Gestão que multiplica impacto.


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